01.01_TRADICIONALISMO E GUERRA PELA ETERNIDAADE

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01.01_TRADICIONALISMO E GUERRA PELA ETERNIDAADE

CRÍTICAS DE DIREITA E ESQUERDA AOS DIREITOS HUMANOS

Resumo: Os direitos humanos, que nascem na modernidade a partir das revoluções
burguesas, em particular da Revolução Francesa, encontraram logo uma forte oposição
ideológica que continua até os dias de hoje, pelos pensadores de direita e de esquerda. Como
afirma Bobbio, os direitos humanos foram submetidos a duas críticas opostas: foram
acusados de excessiva abstratividade pelos reacionários e conservadores em geral; e de
excessiva ligação com os interesses de uma classe particular, a burguesia, por Marx e pelos
marxistas em geral. A partir deste enfoque, apresentamos, neste ensaio, alguns dos autores
mais significativos da tradição crítica dos direitos humanos: Edmund Burke e Michel Villey
pela direita; Marx e Engels, Giorgio Agamben, Slavoj Žižek e Costas Douzinas, pela
esquerda1.
Palavras-chave: pensamento crítico; direitos humanos; direita; esquerda.
Abstract: human rights take place on the modern age’s bourgeois revolutions, specifically the
French one. Soon they found a strong ideological opposition by the right and left thinkers;
opposition that endures until nowadays. As Bobbio stated, human rights have being targeted
by to two opposed critics: mainly reactionary and conservative thinkers accused them of
excessive abstractness; Marx and the Marxist tradition accused them of an excessive link with
the interests of a particular social class: the bourgeoisie. From this approach, this essay will
present some of the most significant authors of the human rights’ critical tradition: Edmund
Burke and Michel Villey represent the “right side”; Marx and Engels, Giorgio Agamben, Slavoj
Žižek and Costas Douzinas represent the “left side”.
Keywords: Critical thought; Human Rights; Right; Left.
01.01_TRADICIONALISMO E GUERRA PELA ETERNIDAADE

TRADICIONALISMO E GUERRA PELA ETERNIDADE

A fim de entender o agônico cenário brasileiro, proponho uma hipótese. Melhor: busco deslindar um paradoxo. O paradoxo da guerra cultural bolsonarista, como a interpreto: sem seu tempero, o bolsonarismo não consegue manter as massas digitais em mobilização permanente; com a ubíqua guerra cultural, porém, não é possível administrar uma realidade complexa como a brasileira, pois a busca constante de inimigos desfavorece a consideração de dados objetivos. Infelizmente, a crise mundial de saúde, provocada pela Covid19, somente acentuou o inevitável colapso produzido por uma mentalidade conspiratória à frente de um país com as dimensões continentais do Brasil. (Na verdade, a onipresença da guerra cultural não permitiria sequer manter estável um modesto núcleo familiar! E, sabemos muito bem, há famílias-franquia que desafiam logísticas as mais complexas.) Em tom dramático: a guerra cultural é a origem e a forma do bolsonarismo, mas, por isso mesmo, será (ou já é?) a razão do fracasso rotundo do governo Bolsonaro.

 

Última advertência: o tema da guerra cultural é, por definição, transnacional e meta-histórico, envolvendo um conjunto considerável de referências teóricas produzidas em muitos idiomas, assim como uma série de práticas políticas mimetizadas em latitudes as mais diversas, especialmente eficazes no universo das redes sociais. De fato, um número crescente de estudos associa com agudeza o contexto local à cena internacional, numa abordagem comparativa de grande interesse. Este não é, contudo, meu propósito. Concentro-me deliberadamente na cena brasileira. E, nessa cena restrita, privilegio o estudo da mentalidade bolsonarista, a fim de trazer à baila aspectos relacionados à história da ditadura militar e à articulação de um movimento, incialmente subterrâneo, de reorganização da direita brasileira a partir de meados da década de 1980. Movimento que, na década de 2010, foi associado com incomum êxito à onda conservadora, especialmente no tocante a temas relacionados à educação sexual. Nesse campo, duas notícias falsas (fake news) tiveram um papel de destaque na vitória eleitoral de Jair Messias Bolsonaro: o inexistente “kit gay” e a deturpação completa de uma área de estudos, gender studies, numa delirante “ideologia de gênero”.